Inalar fumaça cirúrgica é tão prejudicial quanto fumar.

As instalações em que você trabalha eliminam fumaça cirúrgica durante os procedimentos em que ela é produzida? Você sofre efeitos na saúde que podem ser resultado de exposição à fumaça cirúrgica? Antigamente era permitido fumar em ônibus, bares, restaurantes e até em aviões. Hoje é proibido, para não expor os outros passageiros, clientes e trabalhadores à fumaça do tabaco. Mas nas salas de cirurgia nada mudou: os colaboradores presentes em uma intervenção em que fumaça cirúrgica é gerada estão expostos a ela, e também o paciente.

Em 2006, o Instituto Nacional de Segurança e Saúde Ocupacional dos EUA (National Institute for Occupational Safety and Health - NIOSH) recebeu duas solicitações confidenciais para avaliar riscos de saúde, originárias de dois hospitais, na Virgínia e Flórida. Ambas solicitações se deviam à preocupação dos colaboradores com efeitos nocivos à saúde pela exposição a subprodutos da fumaça cirúrgica. Nos dois casos, durante três dias foram coletadas amostras de ar durante procedimentos cirúrgicos com eletrocauterização. Nos dois casos, níveis mensuráveis de formaldeído, acetaldeído e tolueno foram encontrados no ar; os níveis desses componentes estavam abaixo do critério de exposição ocupacional. 

Ainda assim, os funcionários acreditavam sofrer efeitos da exposição à fumaça cirúrgica: em um hospital 44%, e em outro 52% relataram sintomas como dores de cabeça e irritação dos olhos e vias aéreas superiores após a exposição à fumaça cirúrgica. Um número ainda maior reclamou do cheiro da fumaça.

Os hospitais então implementaram controles durante os procedimentos em que fumaça cirúrgica é produzida. Além da ventilação da sala, foram utilizadas técnicas de ventilação recomendadas para saúde e segurança ocupacional, inclusive uso de ventilação e exaustão local o mais próximo possível do ponto onde a fumaça é produzida. Os colaboradores também foram instruídos a relatar sintomas relacionados à fumaça.

Onde há fumaça...

A fumaça cirúrgica é um subproduto do uso de dispositivos de energia (por exemplo, unidade de eletrocirurgia, lasers, instrumentos elétricos). Quando a energia eleva a temperatura intracelular acima de 100° C, o tecido vaporiza, produzindo fumaça cirúrgica, que é visível e tem odor desagradável. Ela pode conter componentes tóxicos, bioaerosóis, vírus (p.ex. HPV e HIV), células de câncer viáveis, partículas não viáveis (p.ex. poeira danosa aos pulmões), tecido carbonizado, fragmentos de sangue e bactérias. O vapor d’água representa 1% a 11% da fumaça cirúrgica e serve como veículo para os componentes, vírus e outras substâncias.

Dispositivos eletrocirúrgicos utilizam corrente de radiofrequência para cortar e coagular. Calor é gerado no tecido através do qual passa corrente. O calor faz as paredes celulares explodirem, liberando fluido celular no ar, o que forma a fumaça cirúrgica. Lasers também produzem calor, dispositivos ultrassônicos removem tecido por ação mecânica; os aspiradores ultrassônicos produzem uma névoa fina e bisturis ultrassônicos produzem vapor. Outros instrumentos mecânicos de alta velocidade, como serras ou furadeiras, produzem aerossóis.

 

Fumantes passivos

Pesquisadores começaram a analisar os conteúdos da fumaça cirúrgica no início dos anos 1980. Em um estudo de 1981, Tomita Mihashi e outros pesquisadores observaram que os conteúdos da fumaça cirúrgica são similares aos de cigarros, com carcinógenos e mutágenos conhecidos. Em 1989, Tomita publicou um novo estudo, mostrando que inalar a fumaça produzida por um laser de CO2 para vaporizar 1 grama de tecido (que não é muito) é como fumar três cigarros sem filtro em 15 minutos. Se, em vez do laser, for usado um dispositivo de eletrocirurgia, a inalação equivale a seis cigarros sem filtro.

Em 2012, Daniel S. Hill e outros pesquisadores utilizaram a fórmula de Tomita para avaliar a poluição ambiental na sala cirúrgica durante um expediente de 8 horas. Eles concluíram que seria necessário fumar de 27 a 30 cigarros sem filtro na sala cirúrgica diariamente para gerar uma poluição do ar passiva com capacidade mutagênica equivalente. Os efeitos a longo prazo da exposição crônica à fumaça cirúrgica permanecem desconhecidos, mas os riscos da exposição passiva ao tabaco estão bem documentados. Os pesquisadores recomendaram o uso de exaustores de fumaça.

ANTIGAMENTE ATUALMENTE

O controle à fumaça do cigarro aumentou bastante, mas nos hospitais raramente há controle sobre a fumaça cirúrgica.

A Administração de Segurança e Saúde Ocupacional dos EUA (Occupational Safety and Health Administration - OSHA) calcula que mais de 500 mil trabalhadores em saúde estejam expostos à fumaça cirúrgica todos os anos. Enfermeiros perioperatórios relatam o dobro de diversos problemas respiratórios em comparação com a população em geral.

INALAR FUMAÇA CIRÚRGICA

Em um turno de 8 horas na sala cirúrgica é como estar em um ambiente em que foram fumados 27 cigarros.

 

A AORN recomenda que a instituição faça uma avaliação do risco de exposição à fumaça cirúrgica; que os membros da equipe utilizem equipamento de proteção individual (EPI); que seja usado equipamento de exaustão da fumaça; que o equipamento de exaustão seja posicionado o mais próximo possível do campo cirúrgico; e que as políticas e procedimentos para segurança de fumaça cirúrgica sejam desenvolvidas e revisadas periodicamente.

Fontes: AORN Surgical Smoke Safety (https://aornguidelines.org/guidelines/content?sectionid=173725179&view=book#180191739)

NIOSH Health Hazard Evaluations Related to Surgical Smoke (https://aornguidelines.org/tool/content?gbosid=394074)



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